Vale do Jequitinhonha: Um grito de socorro bem perto de nós

Reportagem em destaque na versão impressa do Jornal dos Vales desta semana

O Vale do Jequitinhonha, situado no nordeste de Minas Gerais, ocupa uma área de 79.000 km² e possui uma população aproximada de 980.000 habitantes, onde mais de dois terços dela vivem em zona rural, segundo dados colhidos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mesmo sendo banhado pelo rio Jequitinhonha, as restrições hídricas e as secas periódicas são fatores cruciais para a baixa atividade agropecuária e consequente esvaziamento demográfico, por conta do alto índice de pobreza, sendo considerada, em vários estudos, como a “região deprimida”, necessitando de uma mão estendida em face do real grito de socorro.


Com este objetivo, a Missão Boas Novas, departamento da Igreja Assembleia de Deus Ministério de Coronel Fabriciano e Ipatinga/MG, vem desempenhando, há quase três décadas, um papel sócio-religioso nesta região, atendendo necessidades múltiplas e, cumprindo a ordenança bíblica de Jesus Cristo.

Dentro das regiões atendidas pela Missão Boas Novas, encontra-se Diamantina e seus distritos, destacando nesta matéria, o distrito ou povoado de Baixadão, com 200 habitantes e uma grande demanda, no que tange ao sócio-religioso.

Com o propósito de atender este povoado, o casal Ferdinando Teodoro Soares e Eulália Cristina Andrade Lino Soares, foi enviado pela Missão Boas Novas em setembro de 2016 e, com o total apoio do departamento supracitado e da Igreja Assembleia de Deus Ministério de Coronel Fabriciano e Ipatinga/MG, vem desempenhado um bom papel.

A Chamada

Ferdinando é Bacharel em Nutrição e, no momento da chamada, trabalhava como nutricionista clínico e gerente comercial de um restaurante no Vale do Aço. Ele, juntamente com sua esposa Eulália que trabalha como consultora de vendas, descreve que muitos não entenderam o porquê de, com onze meses de casados, eles deixariam casa, família, emprego, amigos e o conforto da cidade de Ipatinga para se dirigirem ao Vale do Jequitinhonha. Todavia, a certeza da chamada de Deus falou mais alto.

A experiência do campo missionário

Baixadão está localizado a 356 km de Ipatinga e com outra realidade, sendo até difícil descrever em palavras, declara Ferdinando. Muitas famílias vivem com uma renda mensal de R$ 125,00. Crianças que, até o momento da nossa vinda, não haviam ganhado um brinquedo novo. Casos de gravidez na adolescência e analfabetismo alarmante são apenas alguns exemplos da situação.


Entretanto, são pessoas gratas a todo e qualquer gesto solidário. Assumimos a Igreja Assembleia de Deus do local, sendo fruto de uma parceria entre Missão Boas Novas e Assembleia de Deus Ministério de Diamantina/MG e, com a função pastoral e o espírito fraterno, começamos a ser vistos como ponto de refúgio para a mais triste realidade dos locais sem o conhecimento do amor ágape (João 3.16 - Bíblia Sagrada): a opressão espiritual.

Com muito temor, oração e apoio da Igreja Assembleia de Deus Ministério de Coronel Fabriciano e Ipatinga/MG, a qual também provém o sustento do casal missionário, iniciamos o trabalho missionário com visitas às casas, cultos evangelísticos, aconselhamento pastoral, evangelização e atividades recreativas com as crianças, fornecimento de roupas e cestas básicas, promoção de eventos na comunidade, bem como o apoio à Escola Municipal de Baixadão com palestras e outros. O resultado se resume no fato de que Deus, o Criador e Sustentador de todas as coisas, tem nos honrado em cada detalhe.

As dificuldades

Na vida de um missionário, a maior dificuldade enfrentada é o afastamento da família e a solidão, todavia o cuidado de Deus conforta nossos corações dia após dia. Há alguns desafios, mas todos eles são adaptáveis. No caso de Baixadão, há a realidade do difícil acesso a comunidades circunvizinhas, devido ao extenso percurso sem calçamento e, em alguns trechos, há a necessidade de atravessar meandros do rio Jequitinhonha. Outros exemplos envolvem a longitude com um posto de gasolina (56 km) ou até com a própria cidade de Diamantina/MG (125 km), bem como todos os serviços que é de praxe para o cidadão e estão localizados em cidades ou grandes centros.

A relação do missionário com a comunidade

Um ponto importante no ministério do missionário é que, enquanto houver disposição em servir, haverá serviço e, no que tange ao serviço para o Reino de Deus, a alegria e a fé se aliam para fortalecer esse serviço, proporcionando uma visão de ótica positiva em tudo, ocasionando bons resultados.


Além das atividades religiosas que acontecem diariamente na Igreja local, envolvendo a membresia e congregados, as atividades sociais aproximam os laços entre os missionários e a comunidade.

Se tratando de Baixadão, o casal missionário Ferdinando e Eulália são capelães, credenciados pela União Nacional e Internacional de Capelães Evangélicos Voluntários (UNICEV) de patente militar e, com isso, proporcionam palestras aos mais variados públicos, além de visitas e assistência social aos presídios e quartéis próximos à comunidade.

Além disso, a presença em escolas através de palestras nutricionais, Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e musicalização infantil fortalece a comunhão entre ambos os lados, quebrando também dogmas e barreiras entre o cristianismo e a comunidade.

Como foi deixar emprego e trabalho para encarar esse desafio

A obra missionária deve ser vista como um privilégio, na qual Deus usa Seu povo de, no mínimo, três maneiras: orando, contribuindo e indo. Na verdade, “Missões se faz com os pés dos que vão, com os joelhos dos que oram e com as mãos dos que contribuem” (autor desconhecido).

Os que vão, como o casal Ferdinando e Eulália, sofrem o impacto da chegada com a nova realidade do campo missionário, mas rapidamente se mostram prontos para o serviço. Deixar tudo e encarar o desafio missionário é ter a certeza, em Cristo Jesus, da vitória.

Termino parafraseando as palavras de Waldir Gonçalves, pastor diretor do Depto. de Missões “Missão Boas Novas”, que diz: “A obra missionária trás perdas, mas nunca trará prejuízos”, isto porque “aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará, sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os seus molhos” (Salmos 126.6 – Bíblia Sagrada)